beirut - elephant gun

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Clara


Eram dias esguios e pasmos de calor que assolavam o pobre espírito de Clara. Faziam-se meses que não se tinha sinal chuva e agora que obtivera o desejo, não mais se importava com a brisa mansa e a garoa rala.
Clara olhava estática a chuva de sua varanda como se sua alma estivesse desguarnecida dali.
Ameaçou alguns passos e deixou-se repousar na rede ao lado de Tobias, seu mais novo companheiro que a sua mãe lhe dera acusando-a de estar muito tempo solitária e que precisava de algo que a distraísse. Presenteou Clara com um cachorro que batizou de Tobias, nome ao qual se chamava o rapaz do mercadinho a um quarteirão de sua casa. Garoto de sorriso fácil tinha malicia com as palavras, alto, olhos castanhos claro, voz rouca e passiva.
Daria um bom divertimento pensava Clara sempre que o via com um sorriso nos lábios provocantemente tentador. Ela o retribuía com finalidade diferente a provocação do jovem rapaz Tobias: lembrava-lhe a semelhança com seu cachorro.
Deitada em sua rede rotineira dos poucos minutos de paz que lhe havia (quando havia), Clara gostava de afagar o preguiçoso Tobias e por se a dançar entre as nuvens de seus pensamentos relembrando antigas metas, planos, desejos; como o mais recente de ir ao show de Leonni pedir-lhe que cantasse somente para ela Temporada das Flores.
Ao reencontrar-se nos pensamentos assustou-se com tamanho tempo que já havia se passado os anos, que por sinal foram generosos, pois mantiveram a beleza das mulheres jovens com a sensualidade das mulheres maduras.
Clara formada em Publicidade passou boa parte de sua adolescência estudando enquanto muitos de seus amigos iam a festas, perdiam a noite em longas conversas, passavam os dias a se preocupar com namoro e ela sempre resoluta a seu único desejo aparente: tornar-se Publicitária.
Certa vez em uma roda de discusões futurísticas um amigo a perguntou.
- Clara quais seus são sonhos?
Não sabendo se existia uma linha que se diferenciam sonhos de objetivos desdenhou-se da conversa e da pergunta que dês de então lhe marcara uma duvida eterna.
Agora formada, estabilidade financeira boa, Clara olhava perplexa em sua volta e via que havia sim alcançado seus objetivos, porem era uma pessoa solitária, nunca tinha tempo para nada, pois o trabalho tomava todo o ensandecido tempo. Desaprendera muita coisa.
-Como se ama? Perguntava-se sempre que se encontrava lúcida do rotulo que o dia a dia a impôs.
Tentava compreender o porquê de mesmo obtendo todos os seus objetivos sentia-se um vazio crescendo dentro de si.
Qual era a diferença se essas existissem mesmo de sonhos e objetivos?
Ao levantar para saciar sua sede Tobias despertou-a de seu transe.
Olhou o relógio, faltava meia hora para ir ao trabalho. Levantou-se da rede fez um estalo com os dedos e Tobias a seguiu, dirigiu-se ao seu quarto e aprontou-se.
Terminado o ritual almoçou um requentado, lavou a louça pos água e comida a Tobias na varanda. Foi ao sótão onde encontrou uma caixa de livros da faculdade de onde prometeu um livro sobre Administração em Publicidade que iria emprestar a uma amiga.
Ao pegar o livro, Clara achou dentro dele uma agenda pequena, preta com mensagens dela, programações da faculdade muitos números de telefone, especialmente um que estava com um asterisco na frente:
-Lucas... – Sussurrou.
Seu antigo amor que por contradições acabaram se afastando e perdendo o contato.
Clara sentiu-se transbordada de mil emoções e lembranças às quais esquecera por completo.
Estazeada voltou à sala pegou a bolsa, guardou o livro e a agenda (porque não?) e ao atravessar a varanda abraçou Tobias, deu-lhe um beijo e disse ironicamente:
- Vou dar de alimento aos porcos – Sorriu francamente.
Abrindo o guarda chuvas atravessou em passos largos o descampado ate a garagem.
Ao longe Tobias jogado preguiçosamente via sua companheira empunhada do celular e ganhando a rua com seu carro. O vento trouxe aos seus ouvidos desatentos.
- Lucas é você? ...
Nascia assim Clara...

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