beirut - elephant gun

domingo, 5 de abril de 2009

Suicidio


Debruçado em sua escrivaninha Augusto lamentava as dividas que encontrara na caixa de correio, questionava-se como as pagaria agora que não obtinha mais emprego.
Dois longos anos de frustrações sobrevivia de aulas de reforço de português que eram raras mais quando apareciam o ajudava a pagar um parte das dividas.
Agora que morava sozinho, sua solidão havia se alargado e tomado espaço avassalador em sua vida, antes tinha ao menos Amanda para dar-lhe apoio e combatê-la, mais agora tudo que lhe havia restado era uma casa alugada com uma escrivaninha, cama de casal, guarda roupa, fogão e geladeira. Sempre que se deparava sozinho na casa lembrava de Amanda e seu filho Caio de um ano, faziam 3 meses que eles haviam deixado Augusto.
Preocupado Augusto foi ate a cozinha apanhar uma garrafa de vodka que comprou com o pouco de dinheiro que ainda restava.
Encheu o copo, olhou fixamente para ele dizendo:
-Minha soberba e minha ruína. Bebeu-o em um único gole repetindo assim varias vezes o mesmo processo.
Absorto retornou a escrivaninha olhando desdenhosamente o caderno aberto sem uma palavra escrita. Repousou os braços na cadeira e verteu-se a chorar perguntando a si mesmo por que as coisas haviam chegado a esse ponto? Por que Amanda o abandonara na hora em que mais precisava dela?
Ficou cerca de uma hora olhando a folha em branco nada disse ou escreveu se não os grandes soluços do choro que tentava abafar.
Lembrou de quando seu pai e sua mãe morreram em um acidente de avião em que ele por acaso não foi por ter muitos enjôos, preferiu ir de carro com seu tio. Quando soube do acidente trancou-se no quarto durante dias sem comer e culpando-se pela morte fatídica de seus pais.
Retomando os pensamentos olhou os esboços de futuros livros que havia escrito alguns poemas acompanhados de muitos sonhos. Riu de muitos pela simplicidade e felicidade de seus versos, achou-os bobos e ao mesmo tempo confortadores.
Pegou a garrafa com o pouco de vodka que restava jogou em uma lixeira e queimou-os um a um cada prosa, poema, livro todos entregues as chamas, observou em um ritual mortuariamente silencioso.
Logo depois tentou ligar para Amanda, quem atendeu foi um homem, não ousou perguntar quem era desligou em seguida. Levantando-se pegou o giz vermelho que havia guardado na gaveta da escrivaninha que Caio esqueceu quando saiu às pressas com Amanda logo após uma briga com Augusto devido ao excesso de bebida que ele estava se submetendo.
Subiu na cama escreveu algo com o giz na parede atrás da cabeceira da cama olhou a casa como se entrasse nela a primeira vez, lembrou dos momentos de prazer com Amanda, de quando recebeu a noticia de que seria pai, a comemoração do nascimento de Caio, ele engatinhando por toda a casa.
Foi ate o jardim da casa e quebrou um vaso de margaridas, pegou a sacola de supermercado que havia dentro portando uma arma que tinha comprado tempos atrás para prevenisse de um assalto.
Achou engraçada a ironia que o destino o lançou, a mesma arma que comprou para zelar sua vida hoje trabalharia de forma alternada.
Retornando para dentro da casa pensou no que gostaria de ter cido, na vida que gostaria de ter dado para Amanda e Caio, colocou um bilhete com o nome de Amanda em cima da escrivaninha, retirou o retrato que estava na mesma de Augusto, Amanda e Caio em um piquenique.
Sentou-se na cama beijou a foto apertando-a logo em seguida no peito, engatilhou a arma de olhos fechados e sussurrou a frase que havia escrito na parede:
- “Quem perde seus sonhos, perde a si mesmo”...
O silencio na rua foi interrompido por um grande estampido.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Roulette


Eram quase sete e meia quando Fernando inquieto levantou-se da cama e caminhou a janela ansioso espreitando os pedestres que caminham aos montes para todos os lados em uma noite chuvosa.
Todas as noites se deparava naquele mesmo lugar com seus pensamentos turvos e o fardo de um dia cansativo, o mesmo copo de uísque transparecendo seu rosto pálido no fundo.
Jovem advogado recém formado filho de pais ricos
O interfone do apartamento interrompeu seus pensamentos e a voz rouca do porteiro avisou-lhe de que tinha visita.
- Por favor, Sr. Jonas, mande-a subir!
Retornou ao seu copo e direcionou-se a varanda do apartamento tranqüilo com a noticia recebida.
Distraído não ouviu o barulho de chaves e a porta abrir dando forma a uma linda mulher alta, olhos castanhos, pernas volumosas e insinuantes, vestido azul claro.
Voltando-se para a sala disse:
- Pensei que não viria mais Manoela!
Aproximando-se a abraçou afetivamente, Fernando a despiu carinhosamente levando-a a cama e balbuciando ao seu ouvido.
- Senti sua falta!
Ela apenas sorria como uma menina sonhadora que encontrará seu príncipe.
Sorriso tão majestoso que esplandeceria qualquer esperança fatidicamente abatida.
Ele a amou como quem se ama a primeira vez, mão tensas, suadas, os corpos entrelaçados entre gemidos e caricias, ele a prometeu sonhos volumosos, jurou-lhe filhos viagens por toda a Europa.
- Eu te amo Manoela! Dizia Fernando apertando-a contra o corpo.
Abraçados cúmplices do mesmo silêncio apenas trocavam carinho quietos ouvindo a chuva cair.
Fernando lembrava de como havia conhecido Manoela.
Em umas noites boemia, quando saia de uma festa onde os amigos o levaram contra vontade e já se iam longe bêbados, alegres e cantarolantes, andando desgostosamente a viu parada na rua e se encantou por sua beleza invejável as suas concorrentes. Dês de então se encontram todos os domingos há quatro anos no apartamento de Fernando.
O relógio anunciava às dez horas com badaladas suaves quando Fernando quebrou o silencio:
- já esta na sua hora, não? Manoela consentiu com a cabeça.
Ele voltou-se a cabeceira da cama
- aqui esta seu dinheiro!
Manoela aceitará com desgosto pois há muito tempo não cobrava um centavo dele, fazia por amor por ele ter devolvido-lhe a vida novamente,sonhos,esperança. Sentia-se ofendida todas as vezes que ele dava-lhe dinheiro.
Manoela se perguntava sempre como foi parar nessa vida de prostituição, violentada pelos pais fugiu de casa e a única maneira que encontrou de arumar o que comer, alem das más companhias que a rua oferece.
A rotina da semana foi cotidicamente correta, rotos desconhecidos, suor, cheiro de vaselina, todos os tipos de homens. Manoela havia recuperado as esperanças e sempre que se deitava com um homem pensava em Fernando nas coisas lindas que ele lhe dizia,
Em como seria sua casa no campo, um lindo casal de filhos e a felicidade de ambos. Era só o que importava a ela, nem os palavrões e embriagueis de seus clientes a incomodava mais.
Domingo pela manhã Manoela foi ao mesmo restaurante de sempre tomar seu café ansiosa em encontrar Fernando e dizer-lhe que abandonaria aquela vida miserável de cafetina.
Folhando o jornal viu em uma coluna social a noticia que o jovem advogado Fernando havia se casado na noite passada e embarcaria para a Europa com sua esposa.
Manoela sentiu-se traída, confusa, relembrará dos planos, sonhos seus futuros filhos com nomes já escolhidos, sua viagens em família para a Europa, sentimento de que foi usada, enganada.
- Europa?! Foram para a Europa!
-Como ele pode?
Desiludida agarrou-se a qualquer pensamento e tentou restabelecerse. Um rapaz tão distinto nunca poderia fazer isso com ela, sempre tão bem educado dizia que a amava sempre fazia questão de dizer que a amava. Chorou cerca de meia hora apoiada na mesa sem tocar no que havia pedido ao garçom antes o jornal.
Com muito trabalho composse, abriu o estojo de maquiagem deu uns retoques colocou um batom.
Levantou-se da mesa, pagou o café amargo que havia pedido e retirouse ligeiramente apressada, contevese ao atravessar a rua.
Um carro esportivo negro de vidros fume parou ao seu lado, a porta se abriu e uma silhueta de um homem bem vestido e com marca de aliança no dedo provavelmente escondida apareceu propondo-lhe um passeio.
Manoela calada sentou ao seu lado, ele ao fechar a porta conduziu sua mão por toda a suas pernas apertando-as agressivamente.
Deu a partida no carro e seguiu entre os becos da cidade.
Manoela não tinha mais aqueles olhos vivos e seu sorriso franco, com uma de suas mão abafando o choro, a cabeça apoiada no vidro do carro balbuciando:
- Fernando... Fernando...
Enquanto o carro desaparecia na escuridão da noite...