beirut - elephant gun

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Roulette


Eram quase sete e meia quando Fernando inquieto levantou-se da cama e caminhou a janela ansioso espreitando os pedestres que caminham aos montes para todos os lados em uma noite chuvosa.
Todas as noites se deparava naquele mesmo lugar com seus pensamentos turvos e o fardo de um dia cansativo, o mesmo copo de uísque transparecendo seu rosto pálido no fundo.
Jovem advogado recém formado filho de pais ricos
O interfone do apartamento interrompeu seus pensamentos e a voz rouca do porteiro avisou-lhe de que tinha visita.
- Por favor, Sr. Jonas, mande-a subir!
Retornou ao seu copo e direcionou-se a varanda do apartamento tranqüilo com a noticia recebida.
Distraído não ouviu o barulho de chaves e a porta abrir dando forma a uma linda mulher alta, olhos castanhos, pernas volumosas e insinuantes, vestido azul claro.
Voltando-se para a sala disse:
- Pensei que não viria mais Manoela!
Aproximando-se a abraçou afetivamente, Fernando a despiu carinhosamente levando-a a cama e balbuciando ao seu ouvido.
- Senti sua falta!
Ela apenas sorria como uma menina sonhadora que encontrará seu príncipe.
Sorriso tão majestoso que esplandeceria qualquer esperança fatidicamente abatida.
Ele a amou como quem se ama a primeira vez, mão tensas, suadas, os corpos entrelaçados entre gemidos e caricias, ele a prometeu sonhos volumosos, jurou-lhe filhos viagens por toda a Europa.
- Eu te amo Manoela! Dizia Fernando apertando-a contra o corpo.
Abraçados cúmplices do mesmo silêncio apenas trocavam carinho quietos ouvindo a chuva cair.
Fernando lembrava de como havia conhecido Manoela.
Em umas noites boemia, quando saia de uma festa onde os amigos o levaram contra vontade e já se iam longe bêbados, alegres e cantarolantes, andando desgostosamente a viu parada na rua e se encantou por sua beleza invejável as suas concorrentes. Dês de então se encontram todos os domingos há quatro anos no apartamento de Fernando.
O relógio anunciava às dez horas com badaladas suaves quando Fernando quebrou o silencio:
- já esta na sua hora, não? Manoela consentiu com a cabeça.
Ele voltou-se a cabeceira da cama
- aqui esta seu dinheiro!
Manoela aceitará com desgosto pois há muito tempo não cobrava um centavo dele, fazia por amor por ele ter devolvido-lhe a vida novamente,sonhos,esperança. Sentia-se ofendida todas as vezes que ele dava-lhe dinheiro.
Manoela se perguntava sempre como foi parar nessa vida de prostituição, violentada pelos pais fugiu de casa e a única maneira que encontrou de arumar o que comer, alem das más companhias que a rua oferece.
A rotina da semana foi cotidicamente correta, rotos desconhecidos, suor, cheiro de vaselina, todos os tipos de homens. Manoela havia recuperado as esperanças e sempre que se deitava com um homem pensava em Fernando nas coisas lindas que ele lhe dizia,
Em como seria sua casa no campo, um lindo casal de filhos e a felicidade de ambos. Era só o que importava a ela, nem os palavrões e embriagueis de seus clientes a incomodava mais.
Domingo pela manhã Manoela foi ao mesmo restaurante de sempre tomar seu café ansiosa em encontrar Fernando e dizer-lhe que abandonaria aquela vida miserável de cafetina.
Folhando o jornal viu em uma coluna social a noticia que o jovem advogado Fernando havia se casado na noite passada e embarcaria para a Europa com sua esposa.
Manoela sentiu-se traída, confusa, relembrará dos planos, sonhos seus futuros filhos com nomes já escolhidos, sua viagens em família para a Europa, sentimento de que foi usada, enganada.
- Europa?! Foram para a Europa!
-Como ele pode?
Desiludida agarrou-se a qualquer pensamento e tentou restabelecerse. Um rapaz tão distinto nunca poderia fazer isso com ela, sempre tão bem educado dizia que a amava sempre fazia questão de dizer que a amava. Chorou cerca de meia hora apoiada na mesa sem tocar no que havia pedido ao garçom antes o jornal.
Com muito trabalho composse, abriu o estojo de maquiagem deu uns retoques colocou um batom.
Levantou-se da mesa, pagou o café amargo que havia pedido e retirouse ligeiramente apressada, contevese ao atravessar a rua.
Um carro esportivo negro de vidros fume parou ao seu lado, a porta se abriu e uma silhueta de um homem bem vestido e com marca de aliança no dedo provavelmente escondida apareceu propondo-lhe um passeio.
Manoela calada sentou ao seu lado, ele ao fechar a porta conduziu sua mão por toda a suas pernas apertando-as agressivamente.
Deu a partida no carro e seguiu entre os becos da cidade.
Manoela não tinha mais aqueles olhos vivos e seu sorriso franco, com uma de suas mão abafando o choro, a cabeça apoiada no vidro do carro balbuciando:
- Fernando... Fernando...
Enquanto o carro desaparecia na escuridão da noite...

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